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Planos de saúde são prioridade
Postada: 08/02/2010 | Atualizada: 08/02/2010 às 10:38

A saúde suplementar atinge 54 milhões de usuários no Brasil e movimenta cerca de R$ 60 bilhões/ano. Ao mesmo tempo em que a carteira de usuários envelhece, o alto custo das mensalidades atropela a expansão dos convênios médicos. Tornar os planos mais acessíveis à população é um teste de fogo para o equilíbrio do sistema. Em Minas Gerais, segundo levantamento do Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS), 13,2% dos consumidores de planos de saúde são idosos, índice acima da média nacional. Para falar sobre o tema, o Estado de Minas entrevista o superintendente do IESS, José Cechin. Como alternativa para reduzir os preços dos planos e crescer a massa de usuários, o especialista e também ex-ministro da Previdência Social defende a polêmica proposta de franquia na saúde, seguindo o modelo adotado pelas seguradoras de automóveis. Para enxugar gastos, Cechin admite que é preciso um investimento maior das operadoras na informação de seus usuários, o que evitaria o uso excessivo da rede de atendimento. O superintendente do IESS compara o sistema de saúde a um grande rodízio. “Quando tem um plano de saúde, o brasileiro age como se estivesse em uma churrascaria. Como paga um valor determinado, vai ao médico e faz exames mais que o necessário.”


Quais as perspectivas para o mercado de planos de saúde este ano?
O ano passado, apesar de ter sido um ano de crise, com o Produto Interno Bruto (PIB) em torno de zero, houve crescimento do número de beneficiários dos planos: 3,6%, tendo como base o 3º trimestre. É possível que, com os números do último trimestre, o crescimento fique em torno de 7%, o que é muito bom. As boas condições para o setor vão se repetir este ano, já que ninguém aposta em um crescimento da economia menor que 4%. Os planos de saúde são uma prioridade para a população e o avanço do setor está ligado ao crescimento econômico do país.


O plano de saúde é uma prioridade, mas o preço das mensalidades ainda é bastante alto para a maioria…


A população percebe os planos como caros, mas isso esbarra na regulação. Existem alternativas para torná-los mais baratos. Por exemplo, com a utilização de franquias, por que não? O sistema poderia funcionar da seguinte forma: o usuário contrataria um plano com uma franquia de R$ 1mil, sabendo que os primeiros R$ 1 mil de gastos que tivesse durante o ano pagaria do próprio bolso. A partir daí, as despesas seriam cobertas pelo plano. Assim, o valor da mensalidade cai muito e o convênio se torna bem mais acessível. Outra possibilidade, que também esbarra na legislação, é a cobertura somente para consultas e exames.


Fatiar a saúde não é perigoso? Não poderia aumentar o número de processos na Justiça?
Essa seria uma forma de atender os anseios da classe mais baixa, que tem renda menor que quatro salários mínimos por exemplo, e que quer ter um plano de saúde. O que as pessoas desejam é não ter que esperar três meses por uma consulta médica no Sistema Único de Saúde (SUS). Ao mesmo tempo, essas pessoas não têm renda para contratar um plano médico no modelo oferecido hoje. Por outro lado, existe sim um temor porque não sabemos como os tribunais reagiriam. Teríamos uma avalanche de ações? Não sei, é algo que precisa ser avaliado.


Existem queixas no setor sobre os custos dos procedimentos médicos. No entanto, levantamento da Agência Nacional de Saúde (ANS) mostrou que poucas operadoras investem em prevenção.


Pode ser que o número de operadoras que praticam a prevenção seja maior do que o apresentado. Muitas podem ter optado por não participar do programa da agência porque julgaram que não teriam ganhos fiscais ou não conheciam a rotina do procedimento de avaliação. A prevenção é importante e poderia crescer se houvesse um programa que valorizasse a saúde. Que tal fazer com que o consumidor escolha seu plano por um índice de qualidade? Escolheria a operadora X porque a saúde de seus usuários é melhor que a da concorrente. Poderia haver um programa de acreditação específico. Isso poderia incentivar o trabalho preventivo.


Quando foi publicado o último rol, com inclusão de novos procedimentos, as operadoras previram um impacto bem maior do que 1% divulgado pela ANS. Com esse novo rol que vale a partir de junho pode ocorrer o mesmo?


Desta vez não sabemos qual será o impacto, teremos que avaliar. O rol de procedimentos faz frente às novas tecnologias e a aspiração das pessoas de ter acesso a elas. Não podemos ser contra a cruz vermelha, mas o impacto deve ocorrer. O marca-passo custa mais de R$ 80 mil, a laparoscopia custa 50% mais que um procedimento normal. A própria agência sabe disso, e definiu esse rol diretrizes clínicas. Ou seja, não é qualquer um que quiser fazer um Pet Scan (exame oncológico) que terá autorização. É preciso ter uma indicação específica.


E a margem das operadoras não é excessiva, já que absorvem 20% do que arrecadam?
Os planos atendem menos e gastam mais do que o SUS… Atender sem pagamento é um dever do poder público. O lucro não é proibido. Apesar disso, a margem das operadoras encolheu. A cada R$ 100 arrecadados, as operadoras devolvem R$ 80 ao sistema. Os 20% que ficam com elas são para custear o serviço, inclusive o lucro. Estudos do setor apontam para um lucro entre 2% e 3%. Já quanto ao SUS, precisamos saber se não gasta menos porque deixa muita gente na fila. Essa situação é diferente nos planos, em que o que ocorre é parecido com o pensamento numa churrascaria. O consumidor brasileiro de plano de saúde tende a usar os serviços mais que o necessário porque tem a ilusão de que os procedimentos são de graça, quando de fato eles elevam os custos da saúde. Não estou dizendo que todos fazem assim, mas muitos fazem.


Estudo do IESS mostra que em Minas as operadoras têm 13,6% de usuários idosos, 2% a mais que a média nacional. Como o senhor percebe o futuro do segmento?
Essa é uma diferença importante. Significa que as operadoras no estado devem estar alertas e saber que, com mais idosos, é preciso fazer ajustes para suportar o envelhecimento da carteira. Enquanto no país as cooperativas têm 35% do mercado e a medicina de grupo 37%, em Minas as cooperativas médicas ficam com 49,6% do mercado e a medicina de grupo com 24,8%. Quanto ao futuro do mercado, a tendência é de que algumas empresas se tornem bastante grandes. Gostaria que não fossem três ou quatro, mas umas 12. Hoje, o que se percebe é que duas empresas dominam 10% do mercado, e as outras 40 maiores ficam com a metade. Existem outras 700 com cerca de 5 mil usuários. É possível que em quatro ou cinco anos algumas empresas dobrem de tamanho, outras estarão sujeitas às dificuldades de cumprir com a regulação e podem ser fechadas. 

Fonte: Estado de Minas